O aluno Power Point
Nesse artigo, falo do
reverso da medalha: do “Aluno Power Point” Pois bem, se o ditado nos garante
que “Filho de peixe, peixinho é”, comumente o “Aluno Power Point” é o estudante
que teve ou tem como professor aquele profissional da educação que aterrissa na
sala de aula com um aparato tecnológico que inclui computador, datashow e o
manjado sistema de apresentação de slides Office da Microsoft, recursos que
deveriam ser utilizados para ilustrar o desenvolvimento de conteúdos, jamais
ser empregados como únicos meios de disseminação de informações, conhecimentos
e saberes em sala de aula como tem acontecido. E o entendimento é o seguinte:
se a aula é o coração do processo ensino-aprendizagem, esses recursos
tecnológicos estão sendo tratados como o coração da aula. Eles estão dando as
coordenadas sobre o modo de estudar e condicionando a um tipo de veiculação de
informação que não contribui para a problematização dos saberes, trazem
raquitismo às atividades voltadas para o saber pensar, delineiam o discurso em
sala de aula e não contribuem nem para o ensinar, nem para o aprender.
Com uma centralidade
nunca vista, esse tipo de recursos tecnológicos, como o Power Point, coloca em
segundo plano outros instrumentos indispensáveis à boa condução do
desenvolvimento cognitivo, intelectual e cultural dos acadêmicos, descartando,
pois, as potencialidades dos trabalhos por meio de livros, jornais, revistas,
trabalhos individuais e em grupo, debate, seminários, filmes, músicas, teatro,
pesquisas bibliográficas e de campo. Ao conviver com um professor que mobiliza
os instrumentos teóricos e metodológicos utilizando esses recursos
tecnológicos, o “Aluno Power Point” passa todo o curso vendo o mestre ler suas
transparências, não aprende a interpretar o que lê, passa ao largo do debate de
idéias, não se exercita na tarefa de problematizar a realidade vivida e
representada pelos saberes que circulam em sala de aula. Esse “Aluno Power
Point” surge à nossa frente quando é solicitado a fazer apresentações de
trabalhos em períodos de avaliação. Ele lê a tela e não sabe dizer o que leu,
não decodifica o sentido de palavras, frases e orações que ele próprio
escreveu. Extrair as idéias contidas naquilo que ele mesmo registrou nos slides
torna-se uma tarefa impossível, para ele e seus colegas. E, se o professor
deixar correr, a apresentação discente se resume a esse tipo de leitura, como
se uma outra língua estivesse sendo falada diante de um grupo passivo e inerte.
Desse modo, esse
estudante não vai além daquilo que faz um analfabeto funcional: ele “desenha”
palavras, mas não sabe que idéias, conceitos, teorias e sistemas explicativos
significam, expressam e propõem. Não debate idéias. Não problematiza os
conteúdos. Não compreende a realidade. Trunca as próprias capacidades de
analisar, sintetizar, julgar e empreender tomadas de decisão que possam
orientar mais apropriadamente as ações dele requeridas no meio social a que
pertence, como pessoa, profissional e cidadão. Trata-se de uma realidade
preocupante. Sabemos, nós que fazemos e sofremos a educação, que um bom
programa formativo implica o desenvolvimento do domínio teórico, consistência
no instrumental prático para a ação e profundo senso ético para calibrar o bem
agir na vida, na profissão e na sociedade. Essas competências e habilidades, não
podemos negar, começam a ser adquiridas na sala de aula. Contudo, o “Aluno
Power Point”, pequenificado em suas potencialidades, não consegue articular
essas três dimensões de sua formação. Ele se esquece de que, ao lado do
professor, ele é o protagonista do processo de ensino-aprendizagem, com quem
deve vivenciar a troca de experiências, o intercâmbio de saberes e a
reciprocidade epistemológica indispensável a que faça o curso escolhido valer a
pena.
Como
não se vê no curso para fazer diferença, o “Aluno Power Point” não compreende
que, como tudo na vida, a aula tem três momentos capitais: o antes, o durante e
o depois. O “antes”, para se preparar para o estudo pessoal e grupal em sala de
aula. O “durante”, para se envolver com as atividades propostas a título de
realização de atos de aprendizagem em situações didáticas em sala. E, por fim,
o “depois”, para revisar e consolidar as informações, conhecimentos e saberes
que foram mobilizados na aula. Do alto do valor da mensalidade que paga à
instituição de ensino e do objetivo que alimenta de adquirir um certificado, o
“Aluno Power Point” pergunta, com a maior naturalidade: “Para que me preparar
para as aulas, participar das atividades em sala e consolidar os conteúdos da
disciplina, se o professor lê seus slids, nos quais resume o conteúdo da
matéria, e os coloca à minha disposição em forma de cópias xerográficas para eu
ler, decorar e, depois, devolver a ele nas provas objetivas que ele me aplica?”
Ele faz esse tipo de pergunta e evidencia que o jogo do “Eu finjo que ensino,
você finge que aprende” está muito bem acordado e funciona como passaporte para
o canudo de terceiro grau. O “Aluno Power Point” precisa se dar conta de que
essa é uma escolha pelo aparentemente mais fácil, mas que poderá lhe trazer problemas
a médio e longo prazos. Ele precisa ser alertado para o fato de que
certificação não garante formação, e que essa requer envolvimento com os
conteúdos estudados nas disciplinas do curso que escolheu, de modo a deixar que
as informações, conhecimentos e saberes nela envolvidos possam transformá-lo,
fazê-lo do avesso, provocar nele a própria reinvenção. Além disso, o “Aluno
Power Point” merece compreender que optar pelas frouxidão que o uso dos
recursos tecnológicos pode acarretar é optar pela menoridade, por aquele estilo
existencial em que a pessoa não pensa por ser pensada, não decide por ser
decidida e nem age por ser levada de roldão e a reboque dos processos
comandados por quem tem imenso interesse em vê-lo como massa de manobra,
cordeirinho dos senhores do mundo e serviçal obediente dos aproveitadores de
plantão. Ele precisa entender que conhecer e saber só fazem sentido se nos
ajudam a ser mais, finalidade para a qual o uso empobrecido do Power Point não
pode contribuir.
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