A
síndrome de Down ainda não tem cura, mas pesquisas recentes apontam a
possibilidade de melhoras cognitivas a partir do uso de medicamento aprovado
para tratamento de Alzheimer. O biólogo Stevens Rehen aborda em sua coluna os
resultados e possíveis impactos desses estudos.

Fonte: cienciahoje.uol.com.br/colunas/bioconexoes/normal-e-ser-diferente
Por:
Stevens Rehen
Publicado
em 25/03/2011 | Atualizado em 25/03/2011
A
síndrome de Down é um evento genético natural e universal, presente em todas as
classes sociais. Pesquisas buscam formas de atenuar os seus efeitos e, assim,
propiciar maior inclusão social de seus portadores. (foto: Vanellus Foto/ CC
BY-AS 3.0)
A
síndrome de Down ocorre quando o indivíduo possui no núcleo de suas células
três cópias do cromossomo 21 em vez de duas. É a condição cromossômica natural
mais recorrente na espécie humana, com prevalência de 1 em cada 691 nascimentos.
No Brasil, há pelo menos 300 mil pessoas com síndrome de Down.
Portadores
dessa síndrome são acometidos com maior frequência por algumas patologias, tais
como leucemia, cardiopatia congênita, hipotireoidismo, problemas respiratórios
e de audição. Muitas dessas situações são tratáveis, de modo que a maioria dos
portadores leva vidas saudáveis, entretanto, o maior desafio à socialização
está na deficiência intelectual, incluindo dificuldades de aprendizagem.
Apesar
dos benefícios do estímulo motor e cognitivo introduzido cedo na vida das
crianças, até muito recentemente acreditava-se que os principais déficits
intelectuais associados à trissomia do cromossomo 21 seriam intratáveis. No
entanto, novos artigos científicos indicam a possibilidade de melhora significativa
no processo de aprendizado e memória a partir da utilização de um fármaco já
aprovado para o tratamento da doença de Alzheimer.
A presença de três cromossomos 21
é o sinal da síndrome de Down. (imagem: National Human Genome Research
Institute)
Cabe
fazer aqui uma pequena digressão. A doença de Alzheimer é a forma mais comum de
demência, cujos primeiros sintomas são a perda de memória e da capacidade de atenção
que culminam em déficit cognitivo.
Há
concordâncias fenotípicas impressionantes entre pessoas com síndrome de Down e
pacientes com Alzheimer, consequência do acúmulo cerebral de uma proteína –
mais especificamente de oligômeros do peptídeo beta-amiloide – resultante do
desequilíbrio na produção da proteína precursora de amiloide, cujo gene se
localiza justamente no cromossomo 21.
Praticamente
todas as pessoas com síndrome de Down irão apresentar ao longo da vida as
perdas cognitivas características da doença de Alzheimer. A diferença é que os
sintomas surgem mais precocemente nos indivíduos com Down.
Embora os
medicamentos atuais não sejam capazes de impedir o avanço ou curar a doença de
Alzheimer, podem ajudar a reduzir a perda de memória. A memantina é um desses
medicamentos. Trata-se de um antagonista de um dos receptores de glutamato, o
principal neurotransmissor do sistema nervoso.
Ensaios
clínicos demonstraram que 28 semanas de tratamento com memantina são
suficientes para reduzir a demência leve ou moderada e a inflamação cerebral em
pacientes com Alzheimer.
Bloqueio certeiro
Uma
linhagem de camundongos (chamados camundongos Ts65Dn) apresenta trissomia
parcial do cromossomo 16 (equivalente ao cromossomo 21 em seres humanos) e
diversas características dos portadores da síndrome de Down, inclusive
deficiência intelectual.
Tratados
com memantina por até seis meses, a partir do primeiro mês de vida, esses
animais melhoraram a capacidade de reconhecimento espacial em relação aos não
tratados. Tal observação foi acompanhada pelo aumento significativo na produção
de uma proteína chamada BDNF, vital para o bom funcionamento dos neurônios. O
tratamento com memantina também reduziu a quantidade de proteína beta-amiloide
no cérebro dos camundongos.
Pesquisador brasileiro avalia a
utilização de memantina, aprovada para o tratamento de Alzheimer, por adultos
com síndrome de Down. (esquema: Wikimedia Commons)
Dentre as
alterações que produz no cérebro, os oligômeros de beta-amiloide ativam
diretamente os receptores de glutamato, provocando a entrada excessiva de
cálcio no interior dos neurônios e alterando sua função. A ativação exagerada
desse receptor com aumento de cálcio intracelular pode ser uma das causas da
demência associada tanto à doença de Alzheimer quanto à síndrome de Down.
Uma
vantagem da memantina estaria em sua baixa afinidade pelo receptor de
glutamato, ou seja, esse fármaco é capaz de bloquear a ação deletéria do
glutamato sem comprometer por completo a atividade fisiológica de seu receptor.
A
administração de memantina imediatamente antes da realização dos testes de
memória foi suficiente para melhorar a performance dos camundongos
Ts65Dn a níveis próximos aos animais controle – que não apresentavam a
trissomia –, reforçando a hipótese de que o papel desse antagonista do receptor
de glutamato seja reduzir o desequilíbrio neuroquímico dos portadores da
síndrome de Down.
Em
contrapartida, não houve melhora cognitiva nos animais sem trissomia após
tratamento com memantina. Estudos sugerem, inclusive, que a memantina pode
prejudicar a aprendizagem de indivíduos comuns. Cabe aqui mencionar que a
administração crônica de memantina pode levar à degeneração de parte importante
dos neurônios em ratos adultos saudáveis.
Impacto social
Desde
2006 comemora-se o Dia Mundial da Síndrome de Down. A data (21/3) é uma alusão
às três cópias do cromossomo 21. Este ano participei da atividade organizada
pela médica Márcia Ribeiro na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Veja vídeo produzido para o Dia
Mundial da Síndrome de Down 2011, resultado de parceria entre 45 países
Em 2010,
por conta de nossos estudos descrevendo a incidência de células com três cópias
do cromossomo 21 no cérebro de pessoas comuns, fui convidado a ministrar uma
palestra no evento organizado em São Paulo por Zan Mustachi, pediatra que
atende crianças especiais há mais de 30 anos.
Na
ocasião, conheci Alberto Costa, cientista brasileiro radicado nos Estados Unidos,
responsável pelo primeiro teste clínico aprovado pela agência que regulamenta o
uso de medicamentos nos Estados Unidos, a FDA, para avaliar a utilização de
memantina por adultos com síndrome de Down.
O
quociente de inteligência (QI) médio da população comum é 100, já o das pessoas
com Down gira em torno de 50. A hipótese de Costa é que a utilização de
memantina associada à boa educação, cuidados e estímulos apropriados poderá
elevar o QI médio dos portadores da síndrome de Down para 70-80.
Se a hipótese
de Costa estiver correta, mais pessoas com síndrome de Down serão capazes de
entrar na universidade e no mercado de trabalho
Alberto
Costa transfere o conhecimento adquirido em modelos animais com o propósito de
melhorar as habilidades intelectuais de indivíduos com síndrome de Down. Cabe
aqui salientar, entretanto, que, como qualquer pesquisa em andamento, é
necessário aguardar a divulgação dos resultados para que eventualmente se
confirmem segurança e eficácia do medicamento em portadores da síndrome de
Down.
Se a
hipótese de Costa estiver correta, mais pessoas com síndrome de Down serão
capazes de entrar na universidade e no mercado de trabalho. Um belo exemplo de
inclusão social como consequência direta da medicina translacional conduzida
por um neurocientista brasileiro e que poderá transformar a vida de milhões de
pessoas em todo o mundo.
Stevens Rehen
Instituto de Ciências Biomédicas
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Stevens Rehen
Instituto de Ciências Biomédicas
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Leitura complementar
Lockrowa et al. Effects of long-term memantine on memory and neuropathology in Ts65Dn mice, a model for Down syndrome. Behavioral Brain Research, 2 abril 2010.
Rueda et al. Memantine normalizes several phenotypic features in the Ts65Dn mouse model of Down syndrome. Journal of Alzheimer’s Disease, v. 21, n.1, p. 277-290, 2010.
Lockrowa et al. Effects of long-term memantine on memory and neuropathology in Ts65Dn mice, a model for Down syndrome. Behavioral Brain Research, 2 abril 2010.
Rueda et al. Memantine normalizes several phenotypic features in the Ts65Dn mouse model of Down syndrome. Journal of Alzheimer’s Disease, v. 21, n.1, p. 277-290, 2010.



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