A formação do simbolismo na criança é
algo de profunda importância para a aprendizagem, visto que é a função
simbólica que dá conta de todo o processo de pensamento. O processo de
simbolização passa a se constituir a partir da separação do bebê e da mãe, possibilitada
pelo Complexo de Édipo, momento em que acontece a entrada de um terceiro, a
função paterna, na relação mãe-bebê.
Separando-se da mãe, o bebê sofre a
frustração propiciada pelo limite, perdendo a onipotência, e dessa frustração
nasce o desejo que constrói o simbólico. De outra forma, podemos dizer que a
formação do simbólico na criança é construída a partir da frustração de seu
desejo não atendido, da perda da onipotência, quando a mãe, depois de exercer
sua preocupação materna primária – fase de dependência absoluta do bebê em
relação à mãe, sendo suficientemente boa, promove a separação do bebê – fase de
dependência relativa, na qual a mãe abandona progressivamente sua adaptação.
Neste momento, a criança inicia um
processo inconsciente, pré- simbólico, no qual um objeto a auxilia a lidar com
essa ausência da mãe: o objeto transicional [1], conceito desenvolvido por
Winnicott, um objeto de relação que “substitui” a mãe. Assim, a criança começa
a buscar a dominação dessa situação, uma forma de elaboração, fazendo a
diferenciação com o mundo exterior.
A partir de então, ela evolui pouco a
pouco para a independência, ao mesmo tempo em que inicia o desenvolvimento de
sua socialização e a aquisição do senso social. É a partir deste lugar, então,
do colo da mãe, de seus cuidados, de sua atenção, que se iniciam as primeiras
aprendizagens do ser humano.
Como afirma Reisswitz (2008, p.8) “a
criança que habita o colo, a voz e o olhar da mãe, fazendo inscrições e sendo
inscrita, vai poder lidar com marcas, com escritas, com aprendizagens em
territórios diversos”.
Utilizando as palavras de Rodulfo (apud
REISSWITZ, 2008, p.8) “os processos de simbolização iniciam nesse lugar, no
colo, no abraço, no olhar, na voz da mãe ou de quem ajuda a fazer esses
trabalhos psíquicos de superfície e de corte”.
Através dessas e de outras vivências,
construídas diariamente em seu contexto, a criança vai evoluindo em seu
desenvolvimento e em suas capacidades. São as ações da vida diária, da rotina
de cuidados com o bebê que o possibilitam criar representações e, indo mais
além, se aventurar e ousar, quando este ambiente lhe parece suficientemente
seguro e confiável.
Como afirma Oliveira (1996, p.22) “são
esses rituais pré-simbólicos, como a hora de dormir, quando a mãe canta a mesma
música e o bebê se aninha aconchegado a seu cobertorzinho, que abrem caminho
para as representações simbólicas”.
Na medida em que cresce e progride em
suas descobertas e experiências, a criança passa a “se conectar a dimensões
espaço-temporais cada vez mais distantes do momento presente” (Ibidem, p. 23),
passando a utilizar signos verbais e imagéticos para representar objetos
significativos.
Esta é uma capacidade fundamental à
aprendizagem, onde a criança, no exercício de sua inteligência, faz uso da palavra
para representar objetos, imagens e ações. Através do registro, evocando
objetos ausentes e os representando, buscando interações e relações, cumpre-se
a função social da escrita que é a de comunicação. “A aprendizagem seria
portanto criativa por natureza, descobrindo ou inventando novos meios de
reorganizar a realidade, de readquirir o curso da ordem abalada, sem perder o
caráter pessoal de seu timoneiro. Sua finalidade primeira seria a de conduzir
ao conhecimento de si mesmo, do objeto e, principalmente, da relação
sujeito-objeto” (Ibidem p. 19).
Assim sendo, resta ainda dizer, a
respeito da importância da capacidade de simbolização da criança, que é a
internalização da ação que possibilita chegar-se às operações, através das
quais construirá sistemas objetivos, coerentes e reversíveis. A própria
linguagem é uma forma de manifestação dessa capacidade, que tem em sua base a
organização dos sistemas lógicos e estruturais que possibilitam a interação com
o meio.
Antes mesmo de entrar na escola, a
criança já tem algum contato com a escrita, em maior ou menor grau, conforme o
meio em que está inserida e as
vivências que realiza em seu cotidiano.
A escrita, uma das formas de linguagem, está presente na sociedade,
especialmente nos meios mais letrados, e sua principal função é a de
comunicação.
Ao contrário da fala, por exemplo, que
é uma atividade eminentemente espontânea, a escrita é algo que precisa ser
trabalhado, estudado, desenvolvido. Geralmente, as crianças aprendem a escrever
na escola, salvo quando já tem um contato mais intensivo e uma iniciativa mais
sistemática no sentido de já estarem mais preparadas para a aquisição e uso
dessa forma de linguagem. Conforme Mata (2003, p.12), “...todas as crianças,
salvo as que sofrem de alguma patologia, aprendem a falar espontaneamente. Ao
contrário, para aprender a escrever as crianças têm de realizar uma atividade
consciente e sistemática. Tal atividade normalmente se desenvolve no âmbito
formal da escola”.
De qualquer forma, há uma série de
etapas que constituem esse desenvolvimento, culminando na possibilidade do
pleno exercício da escrita. Cabe esclarecer que o percurso deste longo caminho
é peculiar a cada criança e, muitas delas, podem encontrar maiores ou menores
dificuldades na aquisição da escrita.
As autoras Ferreiro e Teberosky
realizaram uma importante pesquisa a respeito da função social e do valor da
escrita, que se dedicou a descobrir como se desenvolve este processo, como o
sujeito busca a aquisição dos conhecimentos. Descrever-se-á aqui, os níveis pelos
quais a criança passa na construção deste conhecimento que marca,
significativamente, sua vida e sua trajetória escolar, segundo Ferreiro e
Teberosky (1999).
a) Nível 1 – neste nível a escrita da
criança caracteriza-se pela tentativa de imitação, já que “escrever é
reproduzir os traços típicos da escrita que a criança identifica como a forma
básica da mesma” (Ferreiro e Teberosky, 1999, p.193). Para a criança a escrita
é subjetiva, ou seja, cada um pode interpretar e explicar o que escreveu, mas
não o pode fazer em relação à escrita de outras pessoas. Neste nível a criança
ainda não está preparada para reconhecer a escrita como uma forma de
comunicação e pensa que é necessário um mínimo de caracteres - três - para que
algo possa ser escrito, e estes não podem ser todos iguais.
b) Nível 2 – neste momento a criança
pensa que são necessários diferentes caracteres para que se possa escrever
coisas diferentes. A forma do grafismo é mais semelhante às letras e a criança
utiliza diferentes combinações para escrever diferentes palavras.
c) Nível 3 – neste nível surge a
hipótese silábica, na qual a criança atribui valor sonoro às letras e julga que
cada uma vale por uma sílaba. Este é o primeiro momento em que a criança
relaciona fala e escrita, considerando o caráter sonoro e a representação.
d) Nível 4 – evoluindo em suas
aquisições, neste nível a criança passa da hipótese silábica para a hipótese
alfabética. É de grande riqueza este momento, que possibilita à criança a
coordenação de suas hipóteses, e também das informações que recebeu, ao longo
desta trajetória de construção da escrita.
e) Nível 5 – chegando a este nível, a
criança já compreende que os diferentes caracteres da escrita correspondem a
valores sonoros menores que a sílaba. Assim, na sua escrita ela analisa os
fonemas das palavras considerando sua dimensão sonora e vai, aos poucos, se
defrontando com as dificuldades próprias da ortografia. Compreendido o sistema
de escrita, passa- se a busca da compreensão do sistema ortográfico de escrita.
A construção da escrita é, portanto,
uma das etapas mais importantes da escolarização, considerando-se que
possibilita o desenvolvimento de inúmeras outras aprendizagens que servirão
para além do contexto escolar. Nas palavras de Ferreiro e Teberosky (1999,
p.283): “uma construção real e inteligente por parte das crianças desse objeto
cultural, por excelência, que é a escrita”, um objeto que permitirá a
construção de outras vivências e conhecimentos.
Fonte: http://psicologado.com/atuacao/psicologia-escolar/a-aprendizagem-o-simbolico-e-a-escrita#ixzz3C0v4N3Jy
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